<em>O ETERNO EFÉMERO</em>, de Urbano Tavares Rodrigues
O erotismo, segundo George Bataille, é tudo aquilo que na consciência dos homens os leva a pôr o seu ser e o mundo em questão: logo, o libertino tende à subversão, a questionar os dogmas que condicionam a sua relação com o corpo e pretendem limitar o pleno exercício da sua sexualidade. Assim, o libertino atentará, no limite, contra a própria estrutura política das sociedades. É um subvertor.
O libertino, pelo simples facto de o ser, encerra em si a capacidade rara de poder ajudar o homem comum a compreender-se melhor, a entender os mecanismos que amiúde o conduzem ao desespero e ao temor sexuais: ajuda-o a libertar-se dos seus fantasmas e medo ocultos, a realizar-se com o Outro, em função do Outro, a abrir-se, a expor-se – auto punição que só o exercício da prática sexual permite e amplia.
O último romance publicado de Urbano Tavares Rodrigues, O Eterno Efémero (Ed. D.Quixote), fala-nos de um libertino avant la lettre. O romance estabelece-se como um policial alheio aos códigos do género. O próprio inspector confessa que «afinal se preocupa menos em descobrir quem matou» do que em compreender as quatro mulheres que se encontram sob suspeita. As suas introspecções funcionam como espelho rememorativo do leitor: somos, assim, convocados a um permanente «pôr em causa» à medida em que o inquérito/interrogatório avança e a trama se nos revela.
O Eterno Efémero, organiza-se em torno de um crime: a morte de um libertino dos nossos dias. Um libertino que utiliza a Internet para estabelecer os seus encontros, as suas cumplicidades, o seu domínio. O texto de Urbano, é um longo interrogatório, durante o qual o inspector Moura Prata vai descobrindo/revelando as personalidades e as motivações de quatro mulheres que amaram e se relacionaram sexualmente com Miguel Ruiz Fernandes e com o qual partilharam excessos, experiências, descidas aos infernos. Os seus depoimentos definem o perfil de Miguel, os seus gostos sexuais, a luxúria, os rituais de sedução. Há algo de perturbador nesta personalidade que nos é revelada. Será Miguel Ruiz um sevandija vulgar, ou anunciará uma nova estirpe de fascismo que por dentro, a nível dos comportamentos dissolutos e da sedução que os seus protagonistas exercem sobre os outros (o sexo é também uma forma de poder absoluto), vai corroendo, corrompendo os frágeis linimentos da democracia? Miguel Ruiz é, assim, uma personagem que Urbano, com detectável mordacidade, vai construindo/desconstruindo ao longo do romance, numa estratégia de jogo cúmplice com o leitor que apenas se desfaz (?) com a revelação do seu auto-retrato, que o computador, máquina de inscrever todas as ficções, confessionário individual e portátil, registou em sua larga e disponível memória virtual. Quem era afinal Miguel Ruiz? Um hábil manipulador de sofismas, um provocador libertino, ou um frio e metódico estratega da submissão e do ultraje.
Despertos para a vida
Existe na já vasta obra ficcional de Urbano, uma matriz circular e identitária: o corpo, o social, o declinar das paixões, os afectos. Não temos, na nossa actual literatura, outra fala que seja a um tempo sagaz, mas sempre modulada, sensitiva e sedutora, capaz de nos dizer o delírio dos corpos num lírico que extrai das palavras o suco dos prodígios, e que imponha, sem receios, a mais intransigente denúncia das misérias sociais que mais fundo nos doem.
Urbano é um mestre do erotismo, a inscrever, numa língua pouco moldável à sensualidade, a poética dos corpos, os arrebatamentos, as paixões loucas; mestre desse sussurro subterrâneo e visceral que vai destruindo, diluindo as relações dos amantes até ao definhamento, ao homicídio – amor e morte conjugados em sublime expiação. Urbano não moraliza, dá a ver. Há neste contar como que um retraimento, um imenso pudor, um despojamento exemplares – a tragédia (como neste O Eterno Efémero) a existir, estrangula os gritos, derrama-se por dentro. A escrita de Urbano radica num profundo conhecimento do real, das gentes, das ruas, dos lugares – do viver quotidiano de uma burguesia que chegou aos limites, que desce à abjecção para se aturdir, percorrendo confusa os labirintos da sua própria perplexidade. Mas Urbano Tavares Rodrigues, é um atento cronista do nosso tempo, pontuando a ficção com retratos do real (as guerras do Iraque e da Libéria, os despedimentos, a cruel vida das margens da sociedade neo-liberal), porque sabe que mesmo no pleno fluir da ficção devemos estar atentos e despertos à vida que nos cerca.
Tal como Sade em Os Cento e Vinte Dias de Sodoma, Urbano desenvolve em O Eterno Efémero os mais fundos apelos do Eros e sabe, como Bataille, que «não existe proibição que não possa ser transgredida» e que os frémitos da paixão são momentos únicos e irrepetíveis a esgotar até ao sufoco, quiçá, até à morte. Vivê-los e senti-los até ao osso não merece punição.
O libertino, pelo simples facto de o ser, encerra em si a capacidade rara de poder ajudar o homem comum a compreender-se melhor, a entender os mecanismos que amiúde o conduzem ao desespero e ao temor sexuais: ajuda-o a libertar-se dos seus fantasmas e medo ocultos, a realizar-se com o Outro, em função do Outro, a abrir-se, a expor-se – auto punição que só o exercício da prática sexual permite e amplia.
O último romance publicado de Urbano Tavares Rodrigues, O Eterno Efémero (Ed. D.Quixote), fala-nos de um libertino avant la lettre. O romance estabelece-se como um policial alheio aos códigos do género. O próprio inspector confessa que «afinal se preocupa menos em descobrir quem matou» do que em compreender as quatro mulheres que se encontram sob suspeita. As suas introspecções funcionam como espelho rememorativo do leitor: somos, assim, convocados a um permanente «pôr em causa» à medida em que o inquérito/interrogatório avança e a trama se nos revela.
O Eterno Efémero, organiza-se em torno de um crime: a morte de um libertino dos nossos dias. Um libertino que utiliza a Internet para estabelecer os seus encontros, as suas cumplicidades, o seu domínio. O texto de Urbano, é um longo interrogatório, durante o qual o inspector Moura Prata vai descobrindo/revelando as personalidades e as motivações de quatro mulheres que amaram e se relacionaram sexualmente com Miguel Ruiz Fernandes e com o qual partilharam excessos, experiências, descidas aos infernos. Os seus depoimentos definem o perfil de Miguel, os seus gostos sexuais, a luxúria, os rituais de sedução. Há algo de perturbador nesta personalidade que nos é revelada. Será Miguel Ruiz um sevandija vulgar, ou anunciará uma nova estirpe de fascismo que por dentro, a nível dos comportamentos dissolutos e da sedução que os seus protagonistas exercem sobre os outros (o sexo é também uma forma de poder absoluto), vai corroendo, corrompendo os frágeis linimentos da democracia? Miguel Ruiz é, assim, uma personagem que Urbano, com detectável mordacidade, vai construindo/desconstruindo ao longo do romance, numa estratégia de jogo cúmplice com o leitor que apenas se desfaz (?) com a revelação do seu auto-retrato, que o computador, máquina de inscrever todas as ficções, confessionário individual e portátil, registou em sua larga e disponível memória virtual. Quem era afinal Miguel Ruiz? Um hábil manipulador de sofismas, um provocador libertino, ou um frio e metódico estratega da submissão e do ultraje.
Despertos para a vida
Existe na já vasta obra ficcional de Urbano, uma matriz circular e identitária: o corpo, o social, o declinar das paixões, os afectos. Não temos, na nossa actual literatura, outra fala que seja a um tempo sagaz, mas sempre modulada, sensitiva e sedutora, capaz de nos dizer o delírio dos corpos num lírico que extrai das palavras o suco dos prodígios, e que imponha, sem receios, a mais intransigente denúncia das misérias sociais que mais fundo nos doem.
Urbano é um mestre do erotismo, a inscrever, numa língua pouco moldável à sensualidade, a poética dos corpos, os arrebatamentos, as paixões loucas; mestre desse sussurro subterrâneo e visceral que vai destruindo, diluindo as relações dos amantes até ao definhamento, ao homicídio – amor e morte conjugados em sublime expiação. Urbano não moraliza, dá a ver. Há neste contar como que um retraimento, um imenso pudor, um despojamento exemplares – a tragédia (como neste O Eterno Efémero) a existir, estrangula os gritos, derrama-se por dentro. A escrita de Urbano radica num profundo conhecimento do real, das gentes, das ruas, dos lugares – do viver quotidiano de uma burguesia que chegou aos limites, que desce à abjecção para se aturdir, percorrendo confusa os labirintos da sua própria perplexidade. Mas Urbano Tavares Rodrigues, é um atento cronista do nosso tempo, pontuando a ficção com retratos do real (as guerras do Iraque e da Libéria, os despedimentos, a cruel vida das margens da sociedade neo-liberal), porque sabe que mesmo no pleno fluir da ficção devemos estar atentos e despertos à vida que nos cerca.
Tal como Sade em Os Cento e Vinte Dias de Sodoma, Urbano desenvolve em O Eterno Efémero os mais fundos apelos do Eros e sabe, como Bataille, que «não existe proibição que não possa ser transgredida» e que os frémitos da paixão são momentos únicos e irrepetíveis a esgotar até ao sufoco, quiçá, até à morte. Vivê-los e senti-los até ao osso não merece punição.